Razão e Progresso: o esquecimento do humano na modernidade




Atualmente se concebe a Idade Média como o tempo de trevas da história da humanidade, momento em que o conhecimento só poderia ser acessado por aqueles de direito, os membros da Igreja e os reis, foram séculos nos quais a relação entre poder e saber pode ser percebida com clareza, mas acima de tudo esse foi o tempo da ignorância, da cegueira e da barbaridade.




Para que o sistema se desenvolvesse segundo as pretensões dos poderosos, fez-se uma sociedade embasada na fé, compreender a natureza não era necessário porque deus protege de todos os males aquele que crê em sua bondade. No final das contas, deus foi a forma encontrada pelo homem para se “proteger” da natureza, ou, pelo menos, iludir-se de que não era preciso temê-la, o temor foi transferido para fora do mundo humano, isto é, para o inferno. Não obstante, a fome, o florescimento comercial nos burgos e a Peste Negra, trouxeram o fim dessa época de obscuridade, marcando o alvorecer de uma nova era, a era da racionalidade, da civilização moderna, onde a barbaridade não poderia ocorrer.




Na Modernidade, tomaria conta do intelecto humano a ideia do progresso, deus perderia o trono e daria lugar para a razão. Esse é o momento de “esclarecimento” da humanidade, não mais seria necessário recorrer a deus para sentir-se seguro diante da natureza, ciência e técnica levariam o homem ao progresso e à conservação da espécie. A razão humana, então, passou a ser superior à fé e a busca pelo conhecimento tornou-se o principal objetivo.

O pensamento de Francis Bacon seria um grande incentivador do desenvolvimento científico com aplicação prática para a vida humana. Contrapondo-se ao método dedutivo de Aristóteles, Bacon defende o método indutivo que permite descobrir as leis gerais da natureza possibilitando aos homens subjugá-la, a partir de então, vigora a concepção de que “saber é poder”. A Era Moderna é a época do progresso científico-técnico. No entanto, a ciência e a técnica levaram-nos à cegueira, desenvolveram-se como fins da humanidade,  quando deveriam ser meios para a sua conservação e, com isso, caíram no esquecimento questões fundamentais de nossa existência.

A Modernidade deveria ter sido o momento de esclarecimento da humanidade, o homem passaria a “servir-se de seu próprio entendimento”, aprenderia a agir autonomamente, não necessitando dos outros para saber como deveria agir, fugiria, dessa forma, da barbárie advinda do desconhecimento. O progresso científico, porém, conduziu-nos a uma nova espécie de barbaridade, o homem produziu o totalitarismo, o holocausto e as bombas atômicas. Não somos mais ameaçados pela natureza, mas por nós próprios.




O progresso humano não é o progresso científico, o segundo é meio para o primeiro e não se pode admitir que progredimos quando nós enquanto espécie continuamos ameaçados de desaparecer, não mais pelas forças da natureza, mas por nossas próprias mãos. Progredir é melhorar a condição humana, suas inquietações e angústias e proteger a espécie da morte.




Porém, apesar dessa vontade de progredir do homem moderno, o desenvolvimento da ciência e da técnica marcam um regresso do homem, pois este, conforme trilhava o seu caminho, deixava de ser humano, esquecendo-se de sua relação com o outro. Como afirmaram Adorno e Horkheimer na “Dialética do Esclarecimento”: “A terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal”. Essa calamidade é a possibilidade destrutiva do ser humano atual decorrente de sua desrazão, esta levou-o a usar a sua razão para fins que não são a conservação ou o auxílio, mas a destruição da vida.




Não se pode confundir o progresso científico com o progresso humano, pois estes são processos distintos e complementares. O progresso da humanidade se dá em sua reflexão sobre a vida, a morte, e sua relação com os outros. Por reflexão sobre a vida deve-se entender a discussão acerca do sentido ou a falta dele na existência, pois isso nos permite vê-la não como algo determinado, mas algo a ser construído e aperfeiçoado, como possibilidade.




Em algum momento da nossa história o desenvolvimento científico tornou-se cego, o motivo originário da ciência foi relegado para segundo plano e a humanidade caminha agora para o nada ao qual chamamos progresso. É tempo de refletirmos sobre a nossa condição existencial, de percebermos o nosso lugar no mundo, de colocarmos ciência e técnica como auxiliares da vida, não se trata mais de dominar a natureza, apenas de se proteger dela a partir de nosso conhecimento, mas é necessário dominar a nossa tendência autodestrutiva.




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