Quando o cuidado dói: breves considerações sobre o cuidado do outro




O cuidado é algo tão fundamental que aparece quase que como indissociável da condição humana. Há quem diga que o ser-do-homem é um ser-cuidado. Não obstante, o cuidado é sempre visto como algo bom, benéfico, alegrador. Mas, é preciso ter olhos para o abismo, para notar que, às vezes, o cuidado dói. E que é desta dor que nascem aqueles olhos… olhos de maturidade, olhos que se veem de cima.




Há momentos em que o cuidado se apresenta com lágrimas de sangue. Nestes casos, ele não é necessariamente bom. O reconhecimento da sua necessidade nasce da crença na insuficiência ou na fraqueza do outro. Só se cuida verdadeiramente do que se quer bem. E, quando se ama, deseja-se que o outro seja suficiente em si e para si. Vê-lo na sua menoridade é algo que causa dor a quem ama e o ato de cuidar é praticado em sofrimento igual ou superior ao daquele que é cuidado.




Este cuidado, quando verdadeiro, não é aquele da mãe que reconhece a menoridade do filho, se alegra e se diverte ao vivenciá-la e ao remediá-la; que fica feliz por ter causado a ele um constrangimento e, desta forma, acredita tê-lo feito um bem qualquer. Estes sentimentos nascem ou da incapacidade fadigada de não suportar cuidar daquele que ama ou de algo que não é cuidado, mas poder, trabalho ou exercício modelador.




Aquele que cuida não se põe acima, mas sim ao lado ou abaixo – sem deixar perceber que aí está. É uma relação que se fundamenta no respeito e na renúncia de si, nos quais todo ganho próprio é uma mácula e todo ganho do outro é, ao mesmo tempo, o motivo da alegria daquele que cuidou e também o da sua desgraça – por saber que algum dia se posicionou sobre o objeto amado, quebrando ao menos parte de um pacto que, de início, era pura cumplicidade.




Cuidar em felicidade é, nestas condições, apresentar ao que é cuidado a sua condição de ser-carente. Ao mesmo tempo, é prendê-lo na impossibilidade da recusa, uma vez que impedir o ganho desta alegria tem como consequência a dor do outro. Mas, essa recusa pode ser também um ato de cuidado.  É o ato daquele que não consegue suportar a dor do outro ao cuidar ou não suportar ver a ausência desta dor – que significa a ausência mesma do cuidado.

O sofrimento desta forma de cuidado nasce pois ela é, ao mesmo tempo, um sacrifício. É de uma fragilidade e dor mútua. Ela só é verdadeira se for uma ausência e silêncio eternos ou presença e esclarecimento dolorosos. Até que ponto somos capazes de suportá-los? Ora, é que é desta dor que surge aquela máscara, a maturidade. Pois, não seria a ideia da maturidade um artifício de autoconhecimento para suportar a amargura deste cuidado?

O universo é tão grande, a humanidade guarda tantos segredos e possibilidades, há tanto tempo no passado e no futuro se comparado às de vidas particulares que não há ser capaz de legislar sobre o bem e o mal. Na vida comum, o ceticismo ou dúvida radical é inviável e até insuportável. E, buscando-se na experiência de uma vida curta e humana, cuidamos dos outros com base no provável, no que julgamos certo e na possibilidade do erro. Com o tempo, aumentam as responsabilidades e aqueles a quem cuidar. Somos todos crianças com medo. Do medo e da dor que está neste cuidado, nasce a perspectiva da maturidade e o exercício do controle ou da simples esperança de manter as coisas como são e de burlar toda tentativa de rompimento com o já estabelecido e previsto.

Quem saberá o que é melhor para o outro? O sofrimento nasce ao se querer esse saber. A maturidade nasce para ajudar a suportá-lo. É uma máscara sobre as feridas. Nesta mascara surge “aquele sorriso” e um certo ponto de frieza.




O sorriso é o de quem chegou no final e olha o iniciante desajeitado, sem perceber que todo o caminho e mesmo o término é contingente. O riso que constrange o novato e a criança e oculta a contingência deve ser visto com carinho e piedade. Perdoai, eles não suportam o cuidado. É um sorriso que esconde o medo e afugenta a dor. Já a frieza é aquela que subsiste às sequelas, como as sequelas de uma mãe que sofre tanto ao machucar/constranger o filho que não demonstra, no ato, sentir alegria ou dor. Nem provoca no filho a dor de ver a marca de um sorriso pelo sofrimento causado, nem a dor de ver as lágrimas. É um amar em recuar e ocultar-se – em deixar-se ser menos.




Em meio a tantos devaneios, muito provavelmente frutos da miopia e destas mesmas dores – sabe-se lá quantas delas e de quantos tipos há em cada um de nós… – seria supérfluo concluir. Mas, talvez caiba algumas perguntas: quais as consequências de um cuidado assim, em dor e em frieza, se prolongado? E se nele estiver contido a desesperança do seu sucesso? Quem limpará aquelas lágrimas de sangue?

Moisés Cruz Souza




Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *